Era dos juros baixos será “paraíso para os bancos privados” diz Armínio

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Para os bancos privados, a era dos juros baixos “vai ser um espetáculo, ao contrário do que as pessoas pensam”, diz o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga, hoje à frente de uma gestora de recursos que administra R$ 7 bilhões, a Gávea Investimentos, fundada quando deixou o governo FHC.

Na avaliação de Fraga, embora os bancos ainda estejam tímidos em apresentar produtos mais baratos e mais adequados para financiamento de longo prazo, essa transição deve se acelerar.

Ele defende que o BNDES –banco público de fomento que tem concentrado parte relevante dos empréstimos de longo prazo– passe a exigir que parte do financiamento venha do setor privado.

“Seria muito saudável forçar os sistema a se virar.”

Fraga acredita também que o Banco Central deveria aproveitar o momento para abrir o debate sobre o spread bancário –o “lucro” dos bancos, ou a diferença entre a taxa de juros pela qual eles captam recursos e aquela que cobram de seus clientes.

Fraga diz que o setor privado defende que, na realidade, o spread caiu mais do que dizem os cálculos oficiais. A diferença se daria pela forma como o spread é medido.

Há tanto apoio para esse projeto de reduzir o custo do capital, o custo do capital bancário, seria uma boa hora.

Veja abaixo trechos da entrevista concedida em 9 de outubro no escritório da Gávea, a duas quadras da praia do Leblon, na zona sul carioca:

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Como as empresas estão fazendo para se financiar, agora que as taxas de juros caíram e ficou caro usar recursos próprios?

Não tenho as estatísticas de cabeça, mas nos últimos anos houve um crescimento importante do BNDES no financiamento de longo prazo.

As empresas internacionalizadas, exportadoras ou que produzem bens que concorrem com importados tem sido possível algum financiamento externo, porque não há um descasamento cambial.

E só.

Mas isso não é pouco. Já está indo.

E os títulos de dívida privada?

É um crescimento que não é bem o que se quer, que seria pela via do mercado de capitais, para trazer dinheiro de fundos de pensão e até mesmo de poupadores individuais.

Tem se visto um aumento na emissão de títulos, mas não tanto na colocação desses títulos no mercado.

O fato de o governo carregar muito no financiamento pelo BNDES, com juros subsidiados, não concentra demais o poder de financiamento de longo prazo na mão do governo?

Sem dúvida. E, por melhor que o BNDES seja, e vejo pela carteira de empresas dos nossos fundos o trabalho do BNDES no dia-a-dia, é sempre arriscado concentrar demais e suspeito que o próprio BNDES tenha como meta, e posso falar porque vejo isso na prática, trabalhar mais em parceria com financiadores privados.

Isso é bom.

O histórico de financiador do BNDES é bom, mas a história de financiamento público no mundo, de bancos públicos, não é boa. Há perdas de eficiência, porque é muito difícil imaginar longos períodos sem algum efeito político ou outro que tenha a ver com falta de concorrência. Ineficiência em geral.

É preocupante, mas vejo como sendo uma fase de transição.

Como as taxas de juros cairão bastante, a transição vai se acelerar com o tempo.

O BNDES hoje tem mais ou menos 7,5% do PIB de capital que está sendo, no fundo, coberto por dívida pública.

Do meu ponto de vista, não é enorme, mas certamente não é pequeno. E continua a crescer.

Está chegando a hora, sim, e acho que o próprio BNDES quer dar esse espaço.

Como?

Pode ter um movimento interessante, que pode gerar algum desconforto, se o BNDES exigir financiamento do setor privado em paralelo, o que poderia fazer. Isso vai explicitar alguma diferença de custo.

Você vê algum movimento no sentido de exigir essa contrapartida?

Não, mas é um tema que vem sendo discutido por muita gente e sinto receptividade. É bom para o banco se mexer. É muito difícil se mexer se tem alguém que oferece um capital que você não consegue igualar em custo.

Se o BNDES disser 10% ou 20% desse financiamento tem que vir do setor privado, seria muito saudável para o sistema, obrigá-lo a se virar.

O setor privado entraria com financiamento barato o suficiente?

Seria um pouco mais caro. Mas os juros já caíram tanto, dá para testar. É viável. Seria muito saudável e ia gerar resultados surpreendentes, positivos.

Os juros caíram, mas o spread não tanto.

Spread bancário? Está uma boa hora para dar uma repensada geral nisso. Há muita crítica dos bancos privados de que o spread está mal medido.

Ele tem caído a uma velocidade menor, mas é natural. No início pegam-se as distorções maiores, que foi quando começamos. Foi de 52% para 32% muito rápido. Depois é mais difícil, mesmo.

Os bancos alegam que caiu mais, que o governo não está levando em conta tudo. É um ótimo assunto, acho que o banco central podia fazer um seminário e dar um gás nesse trabalho.

Há tanto apoio para esse projeto de reduzir o custo do capital, o custo do capital bancário, seria uma boa hora.

Quais as dificuldades, para que essa conversa não ande?

Tem que de repente chegar um dia e falar ªFulano, faz isso aqui. Você é o dono desse projeto, corre atrás, o que precisar me avisaº. Precisa o Tombini ou o Mantega dar esse comando pra alguém.

O mercado bancário no Brasil é centralizado?

Não mais que a maioria dos outros. Ter cinco, seis grandes bancos não é um grau exagerado de concentração.

Qual é a saída para manter rentabilidade com juros menores?

Para eles vai ser um espetáculo, ao contrário do que as pessoas pensam. Vão ganhar um pouco menos no float, mas os negócios vão crescer, vão surgir novos produtos, vai ser sensacional para os bancos. Os prazos vão se alongar, os temas e as demandas das empresas vão crescer e ficar cada dia mais sofisticados. Vai ser um paraíso para os bancos. Vão crescer no volume e no prazo. E na complexidade. Aqui espero que não cresçam demais como lá fora, mas vão crescer também.

Fonte: Folha

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